segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Pecadora que ungiu os pés de Jesus na casa de Simão, o Fariseu - Lucas 7: 36-50 por J. C. Ryle



LUCAS 7:36 50

"Este relato, profundamente interessante, encontra-se apenas no evangelho de lucas. A fim de percebermos a beleza da história, devemos fazer sua leitura juntamente com o capítulo 11 do evangelho de Matheus. Descobriremos o notável fato de que a mulher cuja conduta foi descrita nesta passagem provavelmente teve sua conversão como resposta às famosas palavras de Jesus: "Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei" (Mt 11:28). Este maravilhoso convite, dentro de todas as probabilidades humanas, foi a salvação para a sua alma e lhe trouxe paz, pela qual nós vemos expressar imensa gratidão. Uma completa oferta de perdão é sempre o instrumento escolhido por Deus para trazer o pior dos pecadores ao arrependimento.
Primeiramente, vemos nesta passagem que os homens podem demonstrar algum respeito por Cristo e, apesar disso, permanecerem não-convertidos. O fariseu desta história é um exemplo disso. Ele demonstrou para com o nosso Senhor mais respeito do que muitas outras pessoas demonstraram; e "convidou-o... para que fosse jantar com ele". Entretanto, durante todo aquele tempo, ele se mostrou profundamente ignorante quanto a natureza do evangelho de Cristo. Seu coração orgulhoso revoltou-se intimamente, ao ver uma infeliz pecadora lavando os pés de nosso Senhor. Jesus mesmo declarou: "Não me deste água para os pés... Não me deste ósculo... Não me ungiste a cabeça com óleo". Em tudo que Simão fez houve um grande erro. Tudo equivalia a civismo exterior, não havia amor no coração.

Faremos bem em lembrar o caso deste fariseu. É possível alguém possuir uma religião descente e, apesar disso, nada saber a respeito do evangelho de Cristo. É possível alguém respeitar o cristianismo e, assim mesmo, estar completamente cego de suas principais verdades; é possível alguém comportar-se com grande retidão e moralidade e, ao mesmo tempo, detestar com ódio mortal a justificação pela fé e a salvação pela graça. Realmente temos verdadeiras afeições por nosso Senhor Jesus Cristo? Podemos dizer: "Senhor, Tu sabes todas as coisas, Tu sabes que eu te amo?" (João 21:17). Aceitamos cordialmente todo o seu evangelho? Estamos dispostos a entrar no céu ao lado dos piores pecadores e confiar à graça de Deus todas as nossas esperanças? Estas são perguntas sobre as quais temos de ponderar. Se não podemos respondê-las satisfatoriamente, de maneira alguma somos melhores do que Simão, o fariseu, e o Senhor Jesus poderá dizer-nos: "Uma coisa tenho a dizer-te".

Em segundo, nesta passagem vemos que um amor repleto de gratidão é o segredo para realizarmos muitas coisas para Cristo. A mulher arrependida, neste relato, demonstrou mais honra para com Senhor Jesus do que o fizera Simão, o fariseu. Ela, "estando por detrás, aos pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava-os com os seus próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com unguento". Ela não poderia ter dado maiores provas de reverência e respeito; e o segredo de tais provas foi o seu amor. Amava o Senhor Jesus e pensava que nada era demasiadamente difícil de fazer por Ele. Sentiu profunda gratidão para com o nosso Senhor e não pensou se qualquer destas atitudes seria caras demais para Lhe serem oferecidas.

Fazer "mais" para Cristo é o clamor universal de todas as igrejas. Nisto todos concordamos. Todos desejamos ver mais boas obras, abnegação e obediência prática aos mandamentos de Jesus, mas o que causará estas coisas? Nada, exceto o amor. Enquanto não houver mais amor para com Cristo em nosso coração, não faremos mais por Ele. O temor do castigo, o desejo de recompensa, o sentimento de obrigação, todos estes são argumentos proveitosos para persuadir os homens a uma vida de santidade. No entanto, são argumentos frágeis e impotentes, até que os homens amem a Cristo. Se este princípio dominar o coração de alguém, então veremos toda a sua vida transformada.
Jamais nos esqueçamos desta verdade. Embora o mundo zombe intensamente dos sentimentos religiosos e que tais sentimentos às vezes pareçam falsos e não sejam saudáveis, ainda permanece a grande verdade: amar é o segredo de realizar (grifos do autor). O coração precisa amar a Cristo; do contrário, nossas mãos logo desfalecerão. Nossos sentimentos precisam estar envolvidos no serviço de Cristo; se não, nossa obediência logo acabará. O crente que trabalha e ama será sempre aquele que fará mais na vinha de Cristo.

Por último, vemos nessa passagem que o senso de ter nossos pecados perdoados é a fonte e a essência do amor por Cristo. Isto, sem dúvida, era a lição que Jesus desejava que simão aprendesse, quando lhe contou a história dos dois devedores - "Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos". Em seguida Jesus fez-lhe a prescrutadora indagação: "Qual deles, portanto, o amará mais?" Aqui estava a verdadeira explicação, Nosso Senhor procurou mostrar a Simão o profundo amor que a mulher arrependida demonstrara diante dEle. As lágrimas, as profundas afeições, a reverência pública da mulher, sua atitude de ungir os pés de Jesus, todas estas coisas tinham apenas uma causa. Ela havia sido muito perdoada e, portanto, muito amou. Seu amor foi o efeito e não a causa de perdão que recebeu, a consequência e não a condição de que recebeu seu perdão, o resultado e não o motivo de seu perdão, o fruto e não a raiz de seu perdão. Este fariseu desejava saber por que esta mulher demonstrara tanto amor? Foi porque ela sentiu imensamente o perdão recebido. Desejava ele saber a razão por que ele mesmo demonstrara tão pouco amor para com o seu convidado? Foi porque ele não se sentiu sob qualquer obrigação, não tinha consciência de ter recebido o perdão e não possuía qualquer sentimento de dívida para com Cristo.

Este grande princípio estabelecido por nosso Senhor deve sempre permanecer em nossa mente e aprofundar-se em nosso coração. É um dos fundamentos de todo o evangelho. É uma das chaves-mestras que abre os segredos do reino de Deus. A única maneira de tornar um homem santo é ensinar e pregar sobre o completo e gratuito perdão por meio de Jesus Cristo. O segredo de nós mesmos nos tornarmos santos é conhecer e sentir que Cristo perdoou os nossos pecados. A paz com Deus é a única raiz que produzirá o fruto da santidade. O perdão tem de anteceder a santificação. Nada faremos para Cristo enquanto não estivermos reconciliados com Deus. Este é o primeiro passo da vida cristã. Devemos servir a Cristo porque já temos a vida eterna e não para consegui-la. Nossas melhores obras, antes de sermos justificados, são pouco melhores do que pecados esplêndidos. Temos de viver pela fé no filho de Deus; somente então, andaremos nos seus caminhos. O coração que experimentou o amor perdoador de Cristo é aquele que ama a Cristo e se esforça para glorificá-lo.

Deixemos esta passagem com um profundo sentimento da admirável compaixão e misericórdia de nosso Senhor para com o maior dos pecadores. Vejamos na bondade dEle para com a pecadora um encorajamento para qualquer pessoa vir a Cristo para receber perdão, não importando quão grande seja a sua pecaminosidade. Ele nunca quebrará sua promessa: "O que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora! (João 6:37). Se alguém vier a Cristo nunca terá necessidade de desesperar-se de sua salvação.
Ao concluir, perguntemos a nós mesmos: O que estamos fazendo para a glória de Cristo? Que tipo de vida estamos vivendo? Que prova estamos demonstrando de nosso amor por aquele que nos amou e morreu pelos nossos pecados? Estas são perguntas solenes. Se não podemos respondê-las satisfatoriamente, podemos duvidar que temos sido perdoados. A esperança de perdão que não vem acompanhada de amor por Cristo não é verdadeira esperança. A pessoa cujos pecados foram realmente purificados sempre demonstrará, por meio de suas atitudes, que ama o Salvador que a purificou.

John Charles Ryle (1816-1900)

Extraído do livro: Meditações no Evangelho de Lucas, Editora Fiel.

































Nenhum comentário:

Postar um comentário

Nome:
E-mail:

Postar um comentário